Arquivo de 23 de janeiro de 2009
Cultivo da cumplicidade no sucesso e o casal Barack e Michelle Obama
Assisti à posse de Obama, atenta. Ligamos a Internet no escritório, assitimos ao vivo uns trechos. Na sequência, na TV, na Internet, nos jornais, em toda parte, revi a história do incrível jovem, da posse, do desafio tremendo de seu mandato. A torcida é natural. Espero. Observo. Me emociono. Desconfio. E levanto os olhos para a foto do casal BarrackMichelle. Assim, junto mesmo.
A beleza das imagens revela um não-sei-o-que de sucesso extra. Sucesso do mundo do sutil. Vínculo. Austeridade afetiva, se é que isso existe. Amor.
Apreciar e cuidar do que temos é um desafio. Ser bem sucedido é uma coisa. Saber-se e sentir-se bem sucedido, é outra. Lutamos por anos para ser dignos de apreciação e valor, obter posses, manter bons relacionamentos, assumir a responsabilidade por nossas conquistas, permanecendo unidos, afetivos, verdadeiros. Alguns de nós, sim. É fácil unir-se quando se enfrenta um grande perigo coletivo ( seja da família toda, da empresa inteira, do bairro todo, na cidade inteira). Um desastre natural evoca mais facilmente a união do que um prêmio coletivo.
Você não precisa de um êxito como deste jovem, nascido no Hawai, filho de uma americana branca, de um Keniano negro e com padrasto da Indonesia, além de meio irmãos e avós de outras partes, família que ele chama de “mini-nações unidas” para verificar que manter o amor e o valor humano, de acordo com a conquista de seus êxitos, é tão importante quanto delicado e difícil, para o cidadão comum. Cumplicidade e retidão moral, emocional, humana. Pois este casal, lindo e louro, me inspira com uma elegância que diz, sem ter que falar, falar, falar. Eles São. E não abrem espaço para ladrão.

Uma das tendências humanas inferiores é a de conquistar, e não se apossar do que se obteve, depois de ter tido tanta aspiração. O cara que ganha a mulher, e dela se desinteressa. A mulher que seduz a tudo e a todos, e não sabe o que fazer com a conexão consquistada. O cidadão que procura o dinheiro e não pode comprar a ternura e a amizade que asseguram um homem. A senhora que virou profissional performance, e não vê que seus filhos e seus amados preferem rir com ela, quem sabe cantar e dançar, do que admirar sua capacidade e-x-e-c-u-t-i-v-a articulada. Os homens que ainda acreditam que seu valor é medido por quanto eles tem de poder, sem perceber que agrada mais sua disponibilidade de ouvir e compartir, estar perto, relacionar-se, do que seus feitos isolados. Agora, quando ao contrário, testemunho tal autenticidade, e quando além de tudo, o sucesso é real, torna-se especialmente admirável e emocionante. Quero ver a cumplicidade sincera daqueles que agüentam o sucesso. A sinceridade e o compromisso estampados nos rostos dos que ousam aspirar a prosperidade geral. A decência, a beleza, a higiene, a elegância, a honestidade, a expressão aberta dos pensamentos. Gente que ousa manter-se feliz. Ousa falar a verdade, propor melhorias, manter o diálogo aberto, e assumir responsabildiades. Às favas com os ratos de porão, que vivem nos cantos, blasfemando e invejando. Vivas às almas corajosas, que melhoram a tudo, e no lugar da competição idiota, cooperam, admiram, sorriem. Obamas, aplausos! 

Mudanças tolas, transformações necessárias
Recebi um aviso de escola infantil dando conta de que as crianças menores vão ter os colegas de classe alternados. A mudança, diz o informe, visa facilitar o relacionamento com novos colegas. Será?
Por que os professores e diretores não mudam de equipe a cada ano, para atender ao mesmo desafio? Por que já aprenderam a se relacionar super-bem? Será?
Imagino que seja importante desenvolver a habilidade de fazer novos amigos, mas estou segura que o desafio atual é o de nutrir maior qualidade nas relações já existentes. Na família. No namoro. Entre amigos. Nas redes sociais. No trabalho. No esporte. Na rua. Na escola!
Os mais jovens, em especial, podem ter uma lição espetacular ao aprofundar seu contato, seu convívio, sua interação e troca de afeto, de desafeto, de conhecimento, da ignorância, de idéias, com as mesmaspessoas, ao longo do tempo. Isso ensinaria mais sobre “diversidade e aceitação das diferenças”, do que aquelas aulas teóricas sobre ‘não ter preconceitos’.
Levamos dez ou vinte anos para começar a conhecer alguém. E pelo visto, andamos nos saindo bem mal, pelo número de vínculos apressados que fizemos, gerando mudanças desastradas, ou, no mínimo, trocas demais, divórcios, amigos “novos” todo ano. Você tem algum amigo há 5, 10, 15, 20 anos?
Quero conviver com a mesma equipe de trabalho, e ser capaz de me re-inventar. Ver meus mates se recriando ano a ano, conhecer a beleza e a feiúra do meu próximo. Descobrir as pessoas é um processo fascinante. Os momentos de fraqueza, a generosidade, os momentos de genialidade ou de força. Num casamento sadio, numa relação sadia, você tem milhões de ‘poros’ para conhecer no outro. Por que nossas crianças precisariam ser separadas de amigos especiais a elas, para conviver com gente nova, sem uma escolha própria?
A escola do século XXI já merecia ser unananimidade: Esta “escola dos sonhos” existe há 25 anos
em Portugal, e há vários modelos similares no mundo, ainda em regime de excessão, infelizmente.
“Será indispensável alterar a organização das escolas, interrogar práticas educativas dominantes. É urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados”, afirma José Pacheco, da Escola da Ponte.
É uma escola muito engraçada, não tem salas de aula, não tem turmas divididas por faixa etária, não tem testes, não tem nada. Nada da escola tradicional que conhecemos. É uma escola feita com muito esmero em Vila das Aves, Portugal.
Na Escola da Ponte, as crianças decidem o que e com quem estudar. Em vez de classes, grupos de estudo. Independente da idade, o que as une é a vontade de estar juntas e de juntas aprender. Novos grupos surgem a cada projeto ou tema de estudo. Como quando éramos pequenos, e brincávamos na rua. Os mais velhos cuidavam dos mais novos. Nos escolhemos com base no afeto, na afinidade natural, não na lista pré-definida de classes. E acabávamos conhecendo mais pessoas, de maneira natural; o vizinho da rua de baixo, o filho do dono da mercearia, a prima da minha amiga.
Pense nos seus amigos. No seu amor. Nos seus colegas de trabalho. Você tem a mesma idade que eles? Só sai com quem mora no seu bairro, ou com quem trabalha no seu setor?
A escola atual é, de longe, a mais atrasada das instituições humanas. Professores ‘professorais’ abusam do poder, agridem e massacram emocionalmente alunos em nome da disciplina, e recorrem ainda- pasmem!- à ordem convencional do século XIX para “controlar” e educar. Coordenadores com gerundismos de sobra, dizem ‘não’ o tempo todo, em nome do seu ‘planejamento’.
Pois considero a mudança de classes dos alunos um remendo ruim. Pior a emenda que o soneto. Além de segregar a verdadeira sede de saber e envolver-se que tem os alunos, mantendo-os algo apáticos e previsíveis, toma-se deles- à força-o direito de continuar convivendo com amigos, e até mesmo a necessidade de aprender a conviver com amigos chatos. Eles estão em toda parte também.
Lembro-me de em meus tempos de escola, ter sido separada da minha amiga Claudia Aires, da Claudia Pimenta, da Cecília Neves. Estavam nos ajudando a “nos desenvover melhor com outras pessoas”, diziam-nos. Deram um duro golpe em nossa escolha, isso sim. Dificultaram nosso aproveitamento em sala, nos tornaram mais solitárias, éramos muito chegadas. Claro que fizemos outros amigos. Sempre faremos outros amigos. O ser humano é gregário. Quem tem um problema sério de se relacionar, não importa quantas vezes for mudado de classe, não resvolverá sua dificuldade com esta estratégia per se. Precisará de tratamento contra a timidez, contra seu medo de rejeição ou o que for. Mas mesmo apresentando facilidades para fazer amigos, temos o direito de conviver por afinidades, e as mudanças assim, me parecem tolas. As transformações necessárias é que seriam bem vindas. Fala tu. Falo eu.
Vínculos. Livres. Porém escolhidos e naturais.
A organização cartesiana e linear de ensino é confortável para nosso sentimento de controle e nosso auto-engano sobre aprendizagem. O reducionismo presente nos leva a permanecer, geração após geração, procurando perguntas para as mesmas respostas, e não estamos criando grandes poesias, músicas, literatura ou tecnologia neste ambiente. É quando as escolas tradicionais são chacoalhadas, que nascem veredas do conhecimento capazes de levar aos saltos de evolução que assistimos na tecnologia. Estes saltos quânticos devem também privilegiar o prazer e a ética dos relacionamentos humanos. Não devemos ficar grudados as pessoas por dependência ou medo tão pouco. Mas podemos optar por continuar vínculos desejados, e trabalhar com afeto e alegria pela evolução dos envolvidos. Fala tu. Falo eu. A gente também aprende com afeto. Sabia?
2 comentários |A sua chance, 2009
A sua chance de fazer a vida valer a pena chegou. A minha também. Acabo de ganhar um ano inteirinho, novinho em folha para gastar, e garanto a você, no dia 31 de dezembro de 2009 não vou deixar sobrar nenhum dia, vou gastar tudinho, cada dia, um por um! Feliz ano novo, feliz blog novo.
Fala tu! Falo eu!
O ano vem chegando simpático, mas o inconsciente coletivo está apavorado. A crise, O hamas e Gaza, Israel dando um basta, tão tardio quanto exagerado e impróprio. Em Paris não há crise, a Loius Vitton tem fila, como conta o Clóvis Rossi, na Folha. O ano chinês será o do Búfalo, e só começa dia 26 de Janeiro. Ainda tenho uns dias para fazer os planos direito, penso. É o ano do sol, Saturno em oposição a urano, mudança, revisão, outro jeitão. Grandes chances de uma realizaçao diferetona na vida de cada um- para quem surfar na transformação.
Meus planos este ano ficaram diferentes. Minha alma decidiu fazer uma coisa prática. Estou com propósitos fortes, mas sem amarras. Os tempos pedem por renascimento da criatividade, fortalecimento da sinceridade, se entregar ao que está fazendo. É disso que trata a crise. Menos imagem, mais ação. Menos manobras, mais verdades. Suor. Organização. Coerência. Limites e punição às sacanagens sem fim. Ah, como cansam as maldades, falsidades, tipos sórdidos, invalidadores, não amigos, incompetentes, fracos- que são sempre cruéis.
Ah como são preciosos os homens de coragem, lealdade, sinceridade e camaradas da boa luta, competentes, comprometidos, fortes na sua suavidade.
Que os seus filhos tenham o pão, o bom coração, a pouca televisão, seu abraço, a risada de dobrar a barriga, a saúde, a curiosidade. A cooperação, a amizade, a APRECIAÇÃO do que já possuem.
Que você consiga filtros. Escolher direito. Filtro de relevência. Que o ano venha elevante. Relevante. Ou como quer meu amigo Josef Iaari, significante. Meu artigo “Carta para Perth, Austrália” é uma boa dica para começar. Clica lá. e volte aqui. Estou começando o blog mais agitado no Brasil: o dos pensadores em rede. Fala tu! Falo eu!
( ‘Fala Tú’, homenagem ao documentário do mesmo nome, onde meu amigo Thogun inspira com Macarrao e Combatente. Carol Motta, Mara Rúbia e Nei Silva, olha aí, Falo eu!)
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